Postado por Hélio Lemes - 9 de julho de 2019 11:29 | Atualizado há 4 meses

Conhecimento, método e coletividade

diario da manha

Conhecimento, inteligência e sabedoria são vias que se entrecruzam, formando um emaranhado conceitual digno de discussão de par de horas. Conceitual e semanticamente, os termos possuem semelhanças, embora sejam distintos, não se comportando, stricto sensu, na relações de sinonímia. Guardadas as especificidades, seu lastro, lato sensu, suporta medidas de similitude semântica, na exata medida de suas articulações: a inteligência se verifica pelo nível de conhecimento e sabedoria expresso por alguém. Naturalmente, enquanto o conhecimento indica a erudição, a inteligência se refere a habilidade de uso dessa erudição, enquanto a sabedoria indica uma competência no uso da inteligência. Siamesas, seus intestinos parecem processar a mesma matéria, a informação.

Ocorre que, por séculos, conhecimento e sabedoria se vincularam a pessoas mais experientes, restando à jovialidade o ar gracioso de uma inteligência pouco sábia, pouco erudita, mas tenaz observador. A perspectiva de um jovem sábio era tão rara quanto imprópria. Sem dúvida, conhecimento e sabedoria se articulavam com experiência, portanto organizam-se cumulativamente no humano. A acumulação de vivências, todavia, jamais foi uma garantia de conhecimento ou sabedoria: precisava haver inteligência para a tríade se estabelecer.

O método científico partiu dessa verdade para se estruturar, fazendo esquecer a noção do indivíduo e assentando-se no coletivo. O conhecimento científico tornou-se uma abstração, na medida em que se refere a um conjunto de informações não necessariamente encarnado. O conhecimento, a inteligência e a sabedoria científicas se organizam diacronicamente e são validados sincronicamente, pelos pares. Foi assim que a Ciência logrou êxito na desvinculação de conhecimento e sabedoria a pessoas experientes, creditando-os àqueles que observaram a lógica cumulativa social do conhecimento – sua diacronia – e as conversações entre os pares – a sincronia. Formam-se, desse modo, os mestres e doutores, títulos de reconhecimento a pessoas que, pelo método, alcançam conhecimento e sabedoria, em áreas específicas, no exercício de uma inteligência que já é coletiva.

Ao deixar a individualidade e se lançar ao coletivo, a Ciência conseguiu não apenas consolidar seu modelo, mas essencialmente conseguiu acelerar o desenvolvimento em todas as áreas de atuação humana: as revisões de literatura e o teste de novas hipóteses em um mundo conectado elevaram exponencialmente a perspectiva de novos conhecimentos, que são imediatamente socializados, com sua rápida superação. É esse mundo que estamos vivendo. Inteligência e conhecimento não são somente características individuais, mas coletivas. E essa inteligência está de tal modo desenvolvida que estamos extrapolando os limites do corpo e incorporando a inteligência humana em objetos do mundo. Internet das coisas e inteligência artificial se alinham com os telefones inteligentes, TVs inteligentes e cidades inteligentes – smarphones, smartTVs e smart cities.

Ainda que não possamos atribuir sabedoria ao coletivo, principalmente frente aos momentos social e politicamente enfrentados, há de se concordar que o método científico mudou os conceitos de inteligência e conhecimento, fazendo-os entrar em uma velocidade de desenvolvimento jamais experimentada até então. E esse modelo é, essencialmente, coletivo.

Prof. Dr. Cleomar Rocha
Articulista

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