Postado por datapage - 17 de julho de 2015 20:22 | Atualizado há 4 anos

Ágora do século XXI: Sarau de Periferia

Aponta o dedo na cara do seu dia e diz: hoje eu vou ser feliz quer você queira ou não (Sérgio Vaz)

diario da manha

 

Walacy Neto,Especial para DMRevista

 

A relação entre poesia e manifesto, mesmo quando leve, é mestre-sala na maioria dos eventos encontrados no Brasil atualmente. Movimento com voz do povo marginalizado dentro das grandes cidades de pedra e carro. De gente “Preta, pobre e favelada”, como o título do livro de Maria Carolina de Jesus. Resumidamente: o movimento literário de periferia.

Nas favelas de São Paulo essa poesia que “não é pelega, política no sentido chulo”, na fala de Chacal, é abertamente reproduzida pelos moradores nos bares da região.

O Sarau da Cooperifa, que acontece no Bar do Zé Batidão, na Zona Sul da capital paulista é quase que uma ágora do século XXI. Em um artigo de Lúcia Tennina, Sérgio Vaz explica:

O espaço que o Estado deixou para nós é o bar, aqui não tem museu, não tem teatro, não tem cinema, não tem lugar para se reunir, e o bar é o nosso centro cultural, onde as pessoas se reúnem para discutir os problemas do bairro, aonde as pessoas vêm se reunir depois do trabalho, onde as pessoas se reúnem quando vai jogar bola, ou quando é um aniversário, se reúnem para ouvir e tocar samba, então o bar é a nossa ágora, a nossa assembleia, o nosso teatro, tudo, a única coisa que o Estado deixou para nós foi o bar, então a gente ocupou o bar. É só isso o que a gente tem, então, é isso o que vamos transformar.

O poeta, além de se envolver com o sarau, vez ou outra convida palestrantes e organiza mesas de discussões sobre a vida do morador de periferia: a política, as relações, os enfrentamentos.

Difícil entrevistar Sérgio, que carrega muitas convicções. Digo isso com sinceridade, pois tentei. Pode ser o tempo, a falta de oportunidade, a fronteira, a distância que vai além do espaço e do tempo. Sei, ainda assim, que Sérgio Vaz foi influenciado pela música e só depois começou a ler. Em uma entrevista concedida ao site Livre Opinião, de Jorge Filholini, Sérgio lembra que quando era garoto achava que poesia não servia pra nada.

– Achava que poeta era o cara que perdeu a mulher, que tá louco apaixonado e fica dando bom dia pra cachorro. Até ler Pablo Neruda, de ver que a poesia tem essa força de lutar contra a ditadura, contra a fome, a violência e o racismo.

O poeta entende bem de repressão. Durante a ditadura militar Sérgio Vaz estava ali e parece não ter saído.

– Porque de onde eu venho a ditadura não acabou ainda. Acabou pra classe média, onde você pode falar um monte de merda que ninguém discute.

Na periferia ainda é preciso pensar no que se vai falar, pois não é todo dia que se tem um microfone aberto e ouvidos (mais abertos ainda) para escutar seus anseios.

Sérgio conta que antes de se fixarem no Bar do Zé Batidão, ele e Marco Pezão frequentavam, no Bar do Portuga, um evento chamado Quinta Maldita. A ideia era simples, beber e declamar poesia.

– Bêbado enche o saco em todo lugar né? Aí o cara não deixou mais a gente fazer. Aí o Pezão conhecia um outro bar, “o cara faz teatro e tal”, ele me disse.

Sérgio só não imaginava que o evento motivaria pessoas de diversas regiões, que iriam se reunir ali para falar poesia e lotar o bar quase todas as quartas-feiras. Rafa Carvalho, do Sarau D’alva, por exemplo, acha que o Sarau da Cooperifa é uma pérola.

– Tudo que veio antes me importa e me interessa muito. Tenho respeito e, onde vou, peço licença. É sempre uma honra estar no Cooperifa, até porque lá tenho duas mãos muito queridas para beijar: as de Dona Edith e Dona Zazá.

Dona Edith tem mais de 80 anos e é moradora da região, assim como Dona Zazá, são duas figuras conhecidas de quem vai na Cooperifa às quartas.

Ao fundo, atrás de Sérgio Vaz ao microfone, sempre é posicionado um cartaz com a frase: o silêncio é uma prece. O poeta e organizador lembra em todo sarau que assim como as palmas, ao final da poesia, o silêncio também é uma forma de saudar o “irmão” que está no microfone.

“Suas pessoas e suas construções”, segundo Rafa Carvalho é disso que o Cooperifa foi feito.

– Como coisas que vieram antes, mas que ainda estão… Acho importante perceber tudo e todas ainda em processo, nada acabado.

Para entender melhor, vou atrás de outro amigo, em busca de reações e provocações geradas pelo Cooperifa. Jorge Filholini sempre está ao lado dos poetas da Vila Madalena. Atualmente acompanha Marcelino Freire com a oficina literária “Quebras”, passando por diversas cidades fora do eixo Rio-São Paulo. Ele logo me manda uma entrevista que havia feito, durante a Balada Literária de 2014, com Sérgio Vaz: pode usar o que quiser. Jorge me manda o link e logo em seguida um texto com suas impressões sobre o sarau.

– Logo que cheguei ao Bar do Zé Batidão, fui recepcionado pelo poeta Sérgio Vaz. Sorridente, cumprimentou a todos e, pelo microfone, deu a palavra de início para mais uma noite de quarta-feira do Cooperifa.

São mais de 10 anos na linha de frente. Jorge lembra que ficou impressionando ao observar o empenho literário dos jovens durante o recital.

– Incrível métrica, versos e, principalmente, a poesia.

Para chegar mais perto, outro amigo auxilia. Jonas Worcman sempre ouvia falar sobre o Cooperifa. Nunca teve a oportunidade de ir, isso até o dia em que o selo Poesia Maloqueirista foi convidado pra lançar a coleção de livros lá. “Fui pela primeira vez já lançar livros”, salienta.

– Quando retornei ao Cooperifa fui super bem recebido. Sinto que lá as pessoas tem uma sede e valorizam a cultura. É muito prazeroso levar o livro lá – mais fácil de vender que na Vila Madalena.

Jonas lembra do silêncio. Apesar de se tratar de um bar, todos que vão na quarta-feira no Bar do Zé Batidão sentam calados e escutam cada poema declamado com atenção. O silêncio é uma prece.

– Uma prece e uma festa que somados aos poemas criam uma transformação no humor das pessoas. Elas se vêm como fazedoras e criadoras de cultura. Cultura que faz com política, reivindicações em poesia, mas acima de tudo na libertação da voz interior que existe em cada ser humano.

Do Sarau da Cooperifa saíram vários poetas e pra lá vários poetas vão chegando. Motoristas de taxi, advogadas, artesãs e flanelinhas. Lá a poesia não é mero objeto de deglutição das elites, mas um instrumento (não uma arma) de comunicação. Poesia de verdade, ou seja, poesia real que grita baixinho, fazendo uma prece quase que em silêncio. Viva o Cooperifa.

 

O organizador e responsável pelo evento é o poeta Sérgio Vaz
O organizador e responsável pelo evento é o poeta Sérgio Vaz

 

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